
O instante
No balcão do bar, à minha direita, com trinta e oito anos, um metro e oitenta de altura e aproximadamente noventa quilos, Júlio Andrade, engenheiro, toma um café com leite. Está sozinho. Foi um pai exemplar até às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem, quando sua única filha, Marita, de doze anos, foi atropelada por um caminhão quando atravessava a avenida a caminho da escola. Ele acabou de enterrar sua menina e agora não tem mais filha. Não é mais pai de ninguém.
À minha esquerda, com cinquenta e quatro anos, um metro e setenta de altura e sessenta e oito quilos aproximadamente, Cirilo dos Santos, servente de pedreiro desempregado, bebe em silêncio um copo de cerveja. Está sozinho. Ainda guarda no bolso traseiro da calça o bilhete de loteria premiado, cujo resultado ele conferiu na manhã de ontem pela televisão, às oito horas e vinte e três minutos. Está fazendo hora até o banco abrir, quando resgatará o prêmio e colocará fim à vida de privações que ele e sua família levavam até esse momento. Está milionário.
Um deles pensa naquele instante de ontem como o pior de sua vida; o outro, como o maravilhoso início de uma nova existência. Eu sou aquele instante. Às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem eu fui amaldiçoado e enaltecido ao mesmo tempo.
Um instante é uma viagem sem roteiro e planejamento, cujo destino final será um simulacro, uma faísca de vida e suas consequências. Faça-se uma fotografia de Júlio e Cirilo no instante compartido no balcão do bar: um deles mal contém a tristeza, o outro, mal disfarça a sensação de pisar em nuvens. O retrato mostrará o que passa em cada cabeça?
Júlio e Cirilo são a prova de que pode haver horror e alegria num só instante. No mesmo instante. A vida é cheia deles. A vida é cheia de mim.























